terça-feira, 12 de abril de 2011

Arte Rupestre, Arte Indígena e Arte Barroca no Brasil

Embora sejam vistas como se fossem uma só forma de arte entre a maioria dos brasileiros, incluindo-se aí, estudantes do ensino médio e universitário, a Arte Indígena e a Arte Rupestre são formas de expressão distintas, obviamente com estreitos laços parentais. Laços estes que também se estendem ao Barroco tendo por base o contexto ao qual se inseriram, embora neste caso, pouca (ou nenhuma) ligação seja feita através do senso comum.

Considera-se que Arte Rupestre é o nome dado para as mais antigas representações pictóricas conhecidas, realizadas em cavernas, grutas ou ar livre, e é considerada a expressão artística mais antiga da humanidade,  enquanto que a arte indígena, de forma geral é considerada como a arte produzida pelos povos nativos do Brasil, independente da colonização: “A arte já existia em nossas terras bem antes da chegada dos portugueses, em 1.500. Era feita pelos povos indígenas, os habitantes das Américas” (TIRAPELI, 2006:10). Já o Barroco depende totalmente da ligação colonial, pois foi introduzido a partir do séc. XVII pelos missionários católicos. 



Estes três momentos da arte brasileira são comumente vistos como uma linha evolutiva. Entretanto não seria esta a visão mais correta visto que as três formas de arte existem, ainda hoje, independente uma da outra, cada qual com sua própria identidade visual e cultural. Até mesmo a Arte Rupestre sobrevive e muitos estudiosos afirmam ser um erro comum considerar a arte rupestre extinta ou pré-histórica “Na Califórnia e no sul da África, por exemplo, a Arte Rupestre continua a ser produzida no século XIX” (Itaú Cultural).

Enquanto a Arte Rupestre está ligada à gravação ou pintura sobre as rochas, independente da técnica utilizada, a Arte Indígena é mais complexa, e envolve pintura corporal, arte plumária, dança, canto, cerâmica e trançado. O possível aspecto mágico-religioso das pinturas rupestres sobrevive na Arte Indígena, principalmente através das pinturas corporais, confecção de máscaras e demais objetos em contextos ritualísticos, muitas vezes com mais de um significado contextual; indo de um artefato produzido pelo homem comum até a figura viva do ser sobrenatural que representam e da mesma forma nota-se que ainda sobrevive a noção do coletivo “a arte indígena é mais representativa das tradições da comunidade em que está inserida do que da personalidade do indivíduo que a faz” (Wikipédia-Arte Indígena). 

A arte indígena é vista hoje, pela maioria da população, da mesma forma do século XVII, quando descrita pelos europeus como exótica e bonita, porém atrasada, como se fosse na verdade uma arte rupestre, ou uma caricatura. À época, muitos artistas europeus começaram a utilizar os índios como tema, mas poucos realmente haviam conhecido a cultura indígena, e seus trabalhos se basearam em relatos e descrições, que nem sempre condiziam com a verdade, resultando em índios caricatos ou idealizados “A representação fantasiosa também podia atender a objetivos religiosos, como a dos padres jesuítas, que ilustravam, as índias com seios caídos e feições de velhas para ocultar a imagem de sensualidade” (TIRAPELI, 2006:21). Hoje esta deturpação ainda existe, e pior, sob uma ambigüidade graças à mídia, que por um lado estigmatiza a cultura e a arte indígenas como antiquadas, ultrapassadas e até mesmo nefastas e, por outro lado, explora suas belezas, vendendo o exótico de sua arte como produto de consumo para as mesmas elites que colaboram para o gradual desaparecimento das antigas tradições.   

O Barroro brasileiro, por outro lado, teve a vantagem de receber a benção das classes dominantes por sua ligação com a igreja, e sua suntuosidade é, até hoje, vista com olhos estupefatos de admiração entre fiéis, curiosos, turistas e estudantes. Além disso, o Barroco só chegou ao Brasil cerca de cem anos depois dos colonizadores, chegando em terreno fértil para sua aceitação, “Como no Brasil tudo estava por construir e Portugal também veio para catequizar, a igreja teve papel importante na formação da cultura colonial” (TIRAPELI, 2006:20), assim como consolidação como Arte. Isso não significa que o Barroco não tenha enfrentado intempéries para se consolidar.

Diferente da Europa, no Brasil o Barroco foi formado tardiamente, por uma mistura de ideias com influências européias, que vieram principalmente com a corte portuguesa em 1808. Estas acabaram se misturando às influências locais, em um ambiente econômico calcado na pobreza e na simplicidade, resultando em uma visão além-mar negativa, “o Barroco brasileiro já foi acusado de pobreza e incompetência quando comparado com o europeu, de caráter erudito, cortesão, sofisticado e sobretudo branco”. Mas hoje, os estudiosos reconhecem que esta diferença é o fator que tornou o Barroco Brasileiro único. Tanto é que a partir de 1980, as cidades características barrocas foram tombadas como patrimônios da humanidade pela Unesco.
“Pode-se dizer que o amálgama de elementos populares e eruditos produzido nas confrarias artesanais ajuda a rejuvenescer entre nós diversos estilos, ressuscitando, por exemplo, formas do gótico tardio alemão na obra de Aleijadinho (1730 - 1814). O movimento atinge o auge artístico a partir de 1760, principalmente com a variação rococó do barroco mineiro”.
(Itaúcultura: Enciclopédia)

Tudo isso levanta uma questão, pois se muitos acreditam que o Brasil ainda é um país barroco, enquanto que para outros, numa visão etnocêntrica e preconceituosa o veem como uma civilização atrasada, onde "só existem indíos", como se entendessem que indio é sinônimo de atraso cultural e tecnológico. Se o Brasil, de forma geral, ainda é visto pelas potências estrangeiras como detentor das mesmas características dos séculos passados; como o exotismo e o atraso que viam na cultura indígena e a incompetência e a pobreza vista na nossa arte barroca; percebemos que com toda a modernidade e influência recebida pelas diversas matrizes, sejam elas Tupi, Luso, Africana ou outra das tantas que como apontou Darcy Ribeiro em “O Povo Brasileiro”, formaram o conceito do que é ser brasileiro e do que é Brasil. Nem Barroco, nem Índio, tampouco potência hegemônica e cultural moderna. Na sua simplicidade exótica é apenas, Brasil, um país único entre tantos outros.





Referências

TIRAPELI, Percival. Arte Indígena do Pré-Colonial a Contemporaneidade. Cia Editora !Nacional: São Paulo. 2006.

TIRAPELI , Percival. Arte Colonial: Barroco e Rococó – Do século XVI ao XVIII. Cia Editora Nacional: São Paulo. 2006. (COLEÇÃO: ARTE BRASILEIRA)

RIBEIRO, Darcy, O Povo Brasileiro, VERSATIL HOME VIDEO 2000

Enciclopédia Itaú Cultural. Disponível em: <http://www.itaucultural.org.br/> Acesso:  primeiro de março de dois mil e onze  
Wikipédia – Arte Indígena. Disponível em: <http://pt.wikipedia.org/wiki/Arte_ind%C3%ADgena> Acesso: primeiro de março de dois mil e onze

Wikipédia – Arte Rupestre. Disponível em: <http://pt.wikipedia.org/wiki/Arte_rupestre> Acesso: primeiro de março de dois mil e onze

Wikipédia – Barroco. Disponível em: <http://pt.wikipedia.org/wiki/Barroco_brasileiro> Acesso: primeiro de março de dois mil e onze

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