quinta-feira, 25 de março de 2010

Enterrem meu coração na curva do Rio Acre


A cultura indígena, estudada a partir da terceira semana de estudos na UAB-UNB, firmou-se como um dos temas mais debatidos e apreciados do curso de Artes Visuais neste primeiro semestre. Entre os motivos podemos listar o interesse pelo exótico, o questionamento sobre as verdadeiras raízes do povo brasileiro, os prós e contras da adaptação dos índios e a morte decretada de culturas indígenas frente à modernidade.

O Brasil é reconhecidamente um cadinho cultural, uma miscigenação de povos e etnias, onde a indígena influenciou muitos de nossos costumes. Palavras e nomes como Açaí, Carioca, Itajubá, Amapá, Arapuca, e etc, estão tão incorporadas à nossa cultura que não nos damos conta de sua origem indígena. O mesmo ocorre com festejos populares, onde as tradições folclóricas brancas se misturam com sua herança indígena. Parte da sociedade moderna reconhece esta herança cultural e respeita os povos indígenas, lutando para preservar a cultura ao mesmo tempo em que tenta tornar possível a assimilação de algumas das conquistas da cultura branca, como a saúde e o direito à escola. Mas infelizmente, ainda há uma parcela que resiste à própria história, e reluta em aceitar a cultura indígena como uma cultura nivelada à própria, constituindo assim a prática do etnocentrismo. Outra parcela acredita que está ajudando uma causa maior, tentando a todo custo ajudar os indígenas a modernizarem-se, e seguindo este caminho acaba criando problemas maiores. Neste exemplo temos as escolas implantadas em dezenas de aldeias. Dar o direito ao índio de estudar e aprender é válido, mas este tipo de ação perde seu efeito quando se tenta ensinar-lhe a cultura branca, como se a sua não fosse importante e não devesse ser transmitida às gerações posteriores. Para verdadeiramente ajudar este povo, não basta dar-lhes escolas de brancos, ensinando sobre heróis brancos e forçando-lhes a cultura branca e o nosso idioma. É preciso adaptar. Ensinar-lhes sobre suas origens, sua cultura, sua língua mater. Falar de seus heróis, e não dos nossos. Reforçar sua identidade, nunca destroçá-la em prol da nossa própria, como se tem feito há mais de quinhentos anos...

Ainda hoje existe um preconceito muito grande com relação à cultura indígena. Grande parte graças à falta de conhecimento e de informação. Muitos ainda hoje influenciados pela mesma mentalidade do séc. XV, ainda vêem o índio como um povo inferior, não-homens, simplesmente por não seguir o mesmo padrão cultural que nós. Desde então, pouco se fez para estudar ou mesmo admirar estas distintas culturas. E século após século, elas vem sendo dizimadas e inferiorizadas. Não raro, tidas como selvagens, mesmo quando sua base é a preservação da vida e da natureza, com respeito ao próximo e aos deuses. Enquanto isso, sociedades tidas como modernas se digladiam em uma busca incessante de dinheiro, acabam com o meio ambiente e com as relações com o próximo, mas estas não são selvagens, são cristãs... O homem da cidade desconhece a cultura indígena, poucos conseguem entender que por trás das pinturas e das penas há um rico mosaico cultural e religioso. A dança, cântigos, cerâmica, religiosidade, muitas vezes são vistos como mera curiosidade, excentricidade, o exótico que vende.

Outro problema é a demarcação de terras. Embora tenham sido habitantes das Américas bem antes da conquista branca sobre seu território, os índios de hoje são meros pedintes. Solicitam ao homem branco a permissão de habitar reservas demarcadas pelo próprio branco, que na maioria das vezes não procura conhecer as raízes históricas daquele povo e quais terras melhor serviriam a sua cultura. Isso quando se conquista o direito à reservas. E neste caso, o homem branco em sua maioria, simplesmente escolhe pedaços de terra “sem valor”, muitas vezes campos abandonados e estéreis, sem água, sem caça, sem rios e demarca como território indígena, agindo como se estivesse fazendo um favor. Logo em seguida, divulga-se um relatório da bela obra social. Damos terra aos índios. Mas deram-lhe dignidade?

Nós crescemos assistindo a filmes do velho oeste americano, onde o mocinho é sempre o Cowboy, o herói que chega em seu cavalo nobre e enfrenta os índios ferozes e selvagens, que querem a todo custo assassinar a todos os bons homens que passarem pelo seu caminho, e por isso, nas nossas brincadeiras de índio e Cowboy, ninguém queria ser índio, todos queriam ser o herói. Entretanto, no livro “Enterrem meu coração na curva do rio”, de Dee Brown, somos alertados de que esta é apenas uma visão caricaturizada dos índios da América do Norte, e através de relatos dos próprios índios fazendo uma versão mais realista dos fatos, onde fica claro o quanto este povo foi enganado através dos anos. Através da conquista e da lei do mais forte (ou melhor equipado para a guerra), o homem branco avançou impiedosamente sobre estes povos. Enganou os que resistiram com politicagem, mentiras e tratados seguidos de mais tratados de paz que só serviam para diminuir o território indígena e colocar os índios numa posição desfavorável, onde a cada nova assinatura ou polegar colocado no papel, perdiam um pouco mais de sua terra. Como resultado, hoje os EUA destruíram quase que na totalidade sua natureza. Os povos indígenas, outrora vistosos, hoje não são mais que pálidas imagens de um passado nobre. Agora, camuflado sob políticas de conservação o mesmo se repete no Brasil. Estamos permitindo que a cultura indígena seja deturpada, alterada, exterminada a bel prazer.

Claro que existem projetos dignos, que procuram resgatar a cultura indígena, preservá-la, divulga-la não como produto, mas como cultura. Mas infelizmente estas ações são poucas. São raras as escolas indígenas que englobam a cultura local e ensinam a língua original destes povos e não português como língua principal. Existem aldeias com acesso à internet, mas também existem povos inteiros marginalizados. Alguns índios obtêm regalias através de projetos governamentais, mas a maioria, ainda luta para sobreviver dignamente em dias tão difíceis. A verdade é que a cultura indígena como a conhecemos está fadada ao desaparecimento. Os índios estão se tornando temas de filmes que saúdam a glória passada. Figurantes de novela que colocam penas sobre a cabeça para passar uma imagem. Os índios continuarão a ser índios, mas sua cultura está se tornando a do capitalismo, e como tal, a venda de sua cultura está se tornando um lucrativo negócio. E, para finalizar, lembro o exemplo de um jovem índio citado no “Enterrem Meu Coração Na Curva Do Rio”... O indiozinho, todas as tardes assistia a filmes de bang-bang com o amigo, e sempre escolhia ser o cowboy nas brincadeiras. Seu amigo, estranhando a escolha oposta de herói, o questionou do porque ele índio torcer para o cowboy. O indiozinho respondeu “É que eles não são índios de verdade”.

domingo, 21 de março de 2010

Ritos Corporais entre os Nacirema

O antropólogo está tão familiarizado com a diversidade das formas de comportamento que diferentes povos apresentam em situações semelhantes, que é incapaz de surpreender-se mesmo em face dos costumes mais exóticos. De fato, se nem todas as combinações logicamente possíveis de comportamento foram ainda descobertas, o antropólogo bem pode conjeturar que elas devam existir em alguma tribo ainda não descrita.

Deste ponto de vista, as crenças e práticas mágicas dos Nacirema apresentam aspectos tão inusitados que parece apropriado descrevê-los como exemplo dos extremos a que pode chegar o comportamento humano. Foi o Professor Linton, em 1936, o primeiro a chamar a atenção dos antropólogos para os rituais dos Nacirema, mas a cultura desse povo permanece insuficientemente compreendida ainda hoje.

Trata-se de um grupo norte-americano que vive no território entre os Cree do Canadá, os Yaqui e os Tarahumare do México, e os Carib e Arawak das Antilhas. Pouco se sabe sobre sua origem, embora a tradição relate que vieram do leste. Conforme a mitologia dos Nacirema, um herói cultural, Notgnihsaw, deu origem à sua nação; ele é, por outro lado, conhecido por duas façanhas de força: ter atirado um colar de conchas, usado pelos Nacirema como dinheiro, através do rio Po- To- Mac e ter derrubado uma cerejeira na qual residiria o Espírito da Verdade.

A cultura Nacirema caracteriza-se por uma economia de mercado altamente desenvolvida, que evolui em um rico habitat. Apesar do povo dedicar muito do seu tempo às atividades econômicas, uma grande parte dos frutos deste trabalho e uma considerável porção do dia são dispensados em atividades rituais. O foco destas atividades é o corpo humano, cuja aparência e saúde surgem como o interesse dominante no ethos deste povo. Embora tal tipo de interesse não seja, por certo, raro, seus aspectos cerimoniais e a filosofia a eles associadas são singulares.

A crença fundamental subjacente a todo o sistema parece ser a de que o corpo humano é repugnante e que sua tendência natural é para a debilidade e a doença. Encarcerado em tal corpo, a única esperança do homem é desviar estas características através do uso das poderosas influências do ritual e do cerimonial. Cada moradia tem um ou mais santuários devotados a este propósito. Os indivíduos mais poderosos desta sociedade têm muitos santuários em suas casas e, de fato, a alusão à opulência de uma casa, muito freqüentemente, é feita em termos do número de tais centros rituais que possua. Muitas casas são construções de madeira, toscamente pintadas, mas as câmeras de culto das mais ricas têm paredes de pedra. As famílias mais pobres imitam as ricas, aplicando placas de cerâmica às paredes de seu santuário.

Embora cada família tenha pelo menos um de tais santuários, os rituais a eles associados não são cerimônias familiares, mas sim cerimônias privadas e secretas. Os ritos, normalmente, são discutidos apenas com as crianças e, neste caso, somente durante o período em que estão sendo iniciadas em seus mistérios. Eu pude, contudo, estabelecer contato suficiente com os nativos para examinar estes santuários e obter descrições dos rituais.

O ponto focal do santuário é uma caixa ou cofre embutido na parede. Neste cofre são guardados os inúmeros encantamentos e poções mágicas sem os quais nenhum nativo acredita que poderia viver. Tais preparados são conseguidos através de uma serie de profissionais especializados, os mais poderosos dos quais são os médicos-feiticeiros, cujo auxilio deve ser recompensado com dádivas substanciais. Contudo, os médicos-feiticeiros não fornecem a seus clientes as poções de cura; somente decidem quais devem ser seus ingredientes e então os escrevem em sua linguagem antiga e secreta. Esta escrita é entendida apenas pelos médicos-feiticeiros e pelos ervatários, os quais, em troca de outra dádiva, providenciam o encantamento necessário. Os Nacirema não se desfazem do encantamento após seu uso, mas os colocam na caixa-de-encantamento do santuário doméstico. Como tais substâncias mágicas são especificas para certas doenças e as doenças do povo, reais ou imaginárias, são muitas, a caixa-de-encantamentos está geralmente a ponto de transbordar. Os pacotes mágicos são tão numerosos que as pessoas esquecem quais são suas finalidades e temem usá-los de novo. Embora os nativos sejam muito vagos quanto a este aspecto, só podemos concluir que aquilo que os leva a conservar todas as velhas substâncias é a idéia de que sua presença na caixa-de-encantamentos, em frente à qual são efetuados os ritos corporais, irá, de alguma forma, proteger o adorador.

Abaixo da caixa-de-encantamentos existe uma pequena pia batismal. Todos os dias cada membro da família, um após o outro, entra no santuário, inclina sua fronte ante a caixa-de-encantamentos, mistura diferentes tipos de águas sagradas na pia batismal e procede a um breve rito de ablução. As águas sagradas vêm do Templo da Água da comunidade, onde os sacerdotes executam elaboradas cerimônias para tornar o líquido ritualmente puro.

Na hierarquia dos mágicos profissionais, logo abaixo dos médicos-feiticeiros no que diz respeito ao prestígio, estão os especialistas cuja designação pode ser traduzida por "sagrados-homens-da-boca". Os Nacirema têm um horror quase que patológico, e ao mesmo tempo fascinação, pela cavidade bucal, cujo estado acreditam ter uma influência sobre todas as relações sociais. Acreditam que, se não fosse pelos rituais bucais seus dentes cairiam, seus amigos os abandonariam e seus namorados os rejeitariam. Acreditam também na existência de uma forte relação entre as características orais e as morais: Existe, por exemplo, uma ablução ritual da boca para as crianças que se supõe aprimorar sua fibra moral.

O ritual do corpo executado diariamente por cada Nacirema inclui um rito bucal. Apesar de serem tão escrupulosos no cuidado bucal, este rito envolve uma prática que choca o estrangeiro não iniciado, que só pode considerá-lo revoltante. Foi-me relatado que o ritual consiste na inserção de um pequeno feixe de cerdas de porco na boca juntamente com certos pós mágicos, e em movimentá-lo então numa série de gestos altamente formalizados. Além do ritual bucal privado, as pessoas procuram o mencionado sacerdote-da-boca uma ou duas vezes ao ano. Estes profissionais têm uma impressionante coleção de instrumentos, consistindo de brocas, furadores, sondas e aguilhões. O uso destes objetos no exorcismo dos demônios bucais envolve, para o cliente, uma tortura ritual quase inacreditável. O sacerdote-da-boca abre a boca do cliente e, usando os instrumentos acima citados, alarga todas as cavidades que a degeneração possa ter produzido nos dentes. Nestas cavidades são colocadas substâncias mágicas. Caso não existam cavidades naturais nos dentes, grandes seções de um ou mais dentes são extirpadas para que a substância natural possa ser aplicada. Do ponto de vista do cliente, o propósito destas aplicações é tolher a degeneração e atrair amigos. O caráter extremamente sagrado e tradicional do rito evidencia-se pelo fato de os nativos voltarem ao sacerdote-da-boca ano após ano, não obstante o fato de seus dentes continuarem a degenerar.

Esperemos que quando for realizado um estudo completo dos Nacirema haja um inquérito cuidadoso sobre a estrutura da personalidade destas pessoas, Basta observar o fulgor nos olhos de um sacerdote-da- boca, quando ele enfia um furador num nervo exposto, para se suspeitar que este rito envolve certa dose de sadismo. Se isto puder ser provado, teremos um modelo muito interessante, pois a maioria da população demonstra tendências masoquistas bem definidas.

Foi a estas tendências que o Prof. Linton (1936) se referiu na discussão de uma parte específica dos ritos corporal que é desempenhada apenas por homens. Esta parte do rito envolve raspar e lacerar a superfície da face com um instrumento afiado. Ritos especificamente femininos têm lugar apenas quatro vezes durante cada mês lunar, mas o que lhes falta em freqüência é compensado em barbaridade. Como parte desta cerimônia, as mulheres usam colocar suas cabeças em pequenos fornos por cerca de uma hora. O aspecto teoricamente interessante é que um povo que parece ser preponderantemente masoquista tenha desenvolvido especialistas sádicos.

Os médicos-feiticeiros têm um templo imponente, ou latipsoh, em cada comunidade de certo porte. As cerimônias mais elaboradas, necessárias para tratar de pacientes muito doentes, só podem ser executadas neste templo. Estas cerimônias envolvem não apenas o taumaturgo, mas um grupo permanente de vestais que, com roupas e toucados específicos, movimentam-se serenamente pelas câmaras do templo.

As cerimônias latipsoh são tão cruéis que é de surpreender que uma boa proporção de nativos realmente doentes que entram no templo se recuperem. Sabe-se que as crianças pequenas, cuja doutrinação ainda é incompleta, resistem às tentativas de levá-las ao templo, porque "é lá que se vai para morrer". Apesar disto, adultos doentes não apenas querem, mas anseiam por sofrer os prolongados rituais de purificação, quando possuem recursos para tanto. Não importa quão doente esteja o suplicante ou quão grave seja a emergência, os guardiões de muitos templos não admitirão um cliente se ele não puder dar uma dádiva valiosa para a administração. Mesmo depois de ter-se conseguido a admissão, e sobrevivido às cerimônias, os guardiões não permitirão ao neófito abandonar o local se ele não fizer outra doação.

O suplicante que entra no templo é primeiramente despido de todas as suas roupas. Na vida cotidiana o Nacirema evita a exposição de seu corpo e de suas funções naturais. As atividades excretoras e o banho, enquanto parte dos ritos corporais, são realizados apenas no segredo do santuário doméstico. Da perda súbita do segredo do corpo quando da entrada no latipsoh, podem resultar traumas psicológicos. Um homem, cuja própria esposa nunca o viu em um ato excretor, acha-se subitamente nu e auxiliado por uma vestal, enquanto executa suas funções naturais num recipiente sagrado. Este tipo de tratamento cerimonial é necessário porque os excreta são usados por um adivinho para averiguar o curso e a natureza da enfermidade do cliente. Clientes do sexo feminino, por sua vez, têm seus corpos nus submetidos ao escrutínio, manipulação e aguilhadas dos médicos-feiticeiros.

Poucos suplicantes no templo estão suficientemente bons para fazer qualquer coisa além de jazer em duros leitos. As cerimônias diárias, como os ritos do sacerdote-da-boca, envolvem desconforto e tortura. Com precisão ritual as vestais despertam seus miseráveis fardos a cada madrugada e os rolam em seus leitos de dor enquanto executam abluções, com os movimentos formais nos quais estas virgens são altamente treinadas. Em outras horas, elas inserem bastões mágicos na boca do suplicante ou o forçam a engolir substâncias que se supõe serem curativas.

De tempos em tempos o médico-feiticeiro vem ver seus clientes e espeta agulhas magicamente tratadas em sua carne. O fato de que estas cerimônias do templo possam não curar, e possam mesmo matar o neófito, não diminui de modo algum a fé das pessoas no médico feiticeiro.

Resta ainda um outro tipo de profissional, conhecido como um "ouvinte". Este "doutor-bruxo" tem o poder de exorcizar os demônios que se alojam nas cabeças das pessoas enfeitiçadas. Os Nacirema acreditam que os pais enfeitiçam seus próprios filhos; particularmente, teme-se que as mães lancem uma maldição sobre as crianças enquanto lhes ensinam os ritos corporais secretos. A contra-magia do doutor bruxo é inusitada por sua carência de ritual. O paciente simplesmente conta ao "ouvinte" todos os seus problemas e temores, principalmente pelas dificuldades iniciais que consegue rememorar. A memória demonstrada pelos Nacirema nestas sessões de exorcismo é verdadeiramente notável. Não é incomum um paciente deplorar a rejeição que sentiu, quando bebê, ao ser desmamado, e uns poucos indivíduos reportam a origem de seus problemas aos feitos traumáticos de seu próprio nascimento.

Como conclusão, deve-se fazer referência a certas práticas que têm suas bases na estética nativa, mas que decorrem da aversão profunda ao corpo natural e suas funções. Existem jejuns rituais para tornar magras pessoas gordas, e banquetes cerimoniais para tornar gordas pessoas magras. Outros ritos são usados para tornar maiores os seios das mulheres que os têm pequenos e torná-los menores quando são grandes. A insatisfação geral com o tamanho do seio é simbolizada no fato de a forma ideal estar virtualmente além da escala de variação humana. Umas poucas mulheres, dotadas de um desenvolvimento hipermamário quase inumano, são tão idolatradas que podem levar uma boa vida simplesmente indo de cidade em cidade e permitindo aos embasbacados nativos, em troca de uma taxa, contemplarem-nos.

Já fizemos referência ao fato de que as funções excretoras são ritualizadas, rotinizadas e relegadas ao segredo. As funções naturais de reprodução são, da mesma forma, distorcidas. O intercurso sexual é tabu enquanto assunto, e é programado enquanto ato. São feitos esforços para evitar a gravidez, pelo uso de substâncias mágicas ou pela limitação do intercurso sexual a certas fases da lua. A concepção é na realidade, pouco freqüente. Quando grávidas as mulheres vestem-se de modo a esconder o estado. O parto tem lugar em segredo, sem amigos ou parentes para ajudar, e a maioria das mulheres não amamenta seus rebentos.

Nossa análise da vida ritual dos Nacirema certamente demonstrou ser este povo dominado pela crença na magia. É difícil compreender como tal povo conseguiu sobreviver por tão longo tempo sob a carga que impôs sobre si mesmo. Mas até costumes tão exóticos quanto estes aqui descritos ganham seu real significado quando são encarados sob o ângulo relevado por Malinowski, quando escreveu:

"Olhando de longe e de cima de nossos altos postos de segurança na civilização desenvolvida, é fácil perceber toda a crueza e irrelevância da magia. Mas sem seu poder de orientação, o homem primitivo não poderia ter dominado, como o fez, suas dificuldades práticas, nem poderia ter avançado aos estágios mais altos da civilização".

Fonte: YOU AND THE OTHERS - Readings in Introductory Anthropology; A.K. Rooney e P.L. de Vore (Cambridge, Erlich) 1976

quarta-feira, 10 de março de 2010

O ARTISTA E AS "TENDÊNCIAS HEGEMÔNICAS"

Antonio Henrique Amaral,
São Paulo, 23 de agosto de 1995

Sabe-se que há certa perplexidade quanto a curadoria da atual Bienal de Veneza que estaria na "contramão das tendências hegemônicas da historiografia" abordando radicalmente a arte figurativa. Eu gostaria de refletir sobre o seguinte: a arte deste século, como a de qualquer outro século, reflete sempre as transformações que se operam no homem e nas culturas em que vive o artista. Essas transformações ocorrem em dois tempos distintos: no tempo interior do homem e no tempo do mundo a sua volta que parece mais veloz e vertiginoso por causa das mudanças tecnológicas.

Internet, computadores, a informação global nos fazem crer que a nossa vida vai a mil por hora. Cria-se a ilusão do conhecimento imediato e "parece" que a informação é experiência assimilada por mágica eletrônica. No entanto o acesso à informação não deve ser confundido com o conhecimento que é fruto da experiência assimilada, processada lentamente por nossos mecanismos interiores.

Consciente ou não, o artista se defronta com o desafio de lidar com esses dois tempos e através deles criar seu trabalho, desenvolver sua linguagem refletindo seu estar no mundo. Convergir essa dupla visão objetiva-subjetiva (a obra de Kafka). Nesse percurso não existe "mão" nem "contramão". O desenvolvimento do ser humano e de suas linguagens artísticas não são e nunca foram lineares e aqui é que as "vanguardas" iludem. As direções são múltiplas e não existe isso de estar na frente ou atrás.

Baudelaire dizia que a obra de arte é fruto de dois elementos básicos: um elemento constante, que transcende a contingência temporal, feito de antigas inquietações diante dos mistérios de nossa existência e um segundo elemento, circunstancial, que é a Época, a Moda a Moral e a Paixão. As obras de arte buscam a integração desta nossa quase esquizofrênica condição humana.

Não acredito em "hegemonias" e muito menos que se possam "recolocar as coisas no lugar" porque as "coisas" e o artista estão sempre mudando de lugar. Como diz Anthony Storr, "o único dogma aceitável é o de que todos os dogmas são suspeitos".

Princípios estéticos, dogmas religiosos ou políticos sempre desaguam em atitudes sectárias e trágicos componentes autoritários: pretensiosas afirmações de que isto é vanguarda e aquilo é passado, de que é por aqui e não por ali, todas essas "verdades" se desmancham como incertas e frágeis. Somos testemunhas neste século de como são passageiras as verdades éticas, estéticas e políticas que se proclamam lógicas e irrefutáveis.

No mundo das artes os sistemas conceituais de vanguarda são sistematicamente desmontados pelo imprevisível, contraditório e complexo comportamento humano. As vanguardas pós-modernistas estão sempre decretando a morte da pintura que é o cadáver que mais vive e se mexe que conheço. Os dois tempos conflitantes se encontram, desencontram e a pintura continua.

Sobre a discutível "supremacia da arte minimalista e abstrata" e uma possível volta da figura não acredito que a pintura figurativa está voltando porque nunca me ocorreu que ela tivesse ido embora e só agora estivesse voltando... Como nunca engoli "supremacias" de quaisquer tendências. O minimalismo e o abstracionismo são correntes da maior importância mas no meu entender, nunca foram "supremas" porque nenhuma tendência o é. O pintor Francis Bacon detestava a arte abstrata que acusava de decorativa, inconseqüente e instrumento de mistificação, apenas para citar a opinião de um grande artista.

Respeito e amo a obra de muitos artistas abstratos mas se não acredito no "progresso" da arte como posso acreditar em "supremacias" e "hegemonias"? Não são elas que geram dogmáticas teorias excludentes, inquisições, fundamentalismos, intolerâncias e racismos? Minimalistas, abstratos e conceituais enriqueceram o acervo artístico da humanidade mas não excluem outras vertentes do trabalho artístico.

O absurdo, a fantasia, o desejo e o animal se misturam no homem de maneira muito mais complicada do que suspeitam intelectuais portadores do perigoso vírus do raciocínio lógico. A arte é feita sempre com as mãos, os corações e as mentes em poética intimidade. Os caminhos da arte são traçados pelos artistas e não por revistas especializadas ou Bienais. O mundo a nossa volta "parece" apenas que anda muito depressa mas lá dentro da gente o tempo é bem outro. Há muito mais confusão, mistério e alternativas do que nos fazem crer os sacerdotes do Pós-Modernismo e de outros ismos recentes...

Pensar que a arte figurativa refluiu nestas últimas décadas ou ficou pouco visível, eu faria um paralelo com certo panorama político: se eu morasse em Moscou nos anos 70 e me perguntassem - "Você acha que as liberdades democráticas refluiram nas últimas décadas ou apenas ficaram menos visíveis?" No Brasil, onde um arraigado provincianismo infesta uma certa elite intelectual ansiosa em estar ao dia com certas "tendências hegemônicas", aceitar sem discussão as "verdades" ditadas por instituições e artistas mais em evidência nas metrópoles-modelo, deixa a impressão de que há leis que dizem o que é certo ou errado.

De repente tudo tem que ser abstrato ou conceitual ou figurativo ou construtivo ou expressionista ou sabe-se lá o que determinou o teórico alemão ou americano ou italiano em voga no momento. Dá a impressão de que se instalam regimes culturais de "franchising" concedidas por Instituições ou críticos de renome internacional. A remuneração dessa "franchising" é a participação neste ou naquele evento, uma migalha no mercado X ou Y, um que outro artigo na revista B ou C. Para alguns a pintura figurativa está invisível, para outros nunca deixou de ser visível. Só vê quem tem os olhos abertos e cabeças sem pré-conceitos.

No Brasil, uma parcela da mídia e de certo público, acredita que a hegemonia abstrata e conceitual "domina" a cena artística local. Como pintor, gravador e desenhista não me preocupo em ser coerente pois se trabalho com a figura, às vezes, meu trabalho é francamente não objetivo. O pintor americano Barnett Newman dizia que ele estava para a estética assim como os pássaros estavam para a ornitologia...Assino embaixo e entendo que o desejo, a paixão, desordenam quaisquer princípios éticos e teorias estéticas.

Quanto à hegemonia abstrata e conceitual que pretensamente "domina" a cena artística brasileira é mais um jogo de cena do que verdade: jogos de grupos interessados em emular modelos em voga. Insegurança cultural? Acredito que o desafio do artista é criar no meio da confusão de informações e hegemonias dominantes. Nossa realidade é complexa e múltipla demais e precisa de toda a informação e experiência dos que refletem essa diversidade. Obstruir esse processo é equívoco histórico da maior gravidade.

Em face de tais grupos dominantes temos que ser sempre esteticamente incorretos e assumir de uma vez por todas as complexidades envolvidas e o risco de sermos diferentes. Criar nossos valores num processo sociocultural de individuação junguiana em todas as áreas de nossa vida social, cultural, econômica, política e artística. Trabalhar com mais poesia e independência intelectual, mais próximos da criação e menos envolvidos com os procedimentos burocráticos das "tendências hegemônicas da historiografia"

O desejo é a força criadora e excluí-lo da obra de arte é fatal para esta última. Em arte, conceitos racionais, intelectuais, têm vida curta. Artistas conceituais apaixonados como um Joseph Beuys deixam um inequívoco registro (sociológico? estético?) com a integridade de sua fé ou um esperto Andy Warhol com seu absoluto cinismo, marcam presença intensa em seus cenários culturais. A meu ver não são tendências universais e sim artistas únicos.

Neste final de milênio a invenção e a experimentação vão continuar porque os artistas sempre encontram as saídas dos becos. O homem pinta, esculpe e desenvolve linguagens há vários milênios (20.000, 40.000?) e continuará a fazer isso. Quem sabe as artes visuais estejam procurando um terreno mais firme, um diálogo mais simples com seu público, uma reaproximação poética mais densa com o homem, suas fantasias, sonhos e desejos. Com gestos mais possíveis que o ajudem nesta caminhada sabe-se lá para onde.

(Originalmente publicado em O ESTADO DE SÃO PAULO, página D6, 24 de setembro de 1995)

sexta-feira, 5 de março de 2010

1º Feliz Metal


Evento beneficente realizado anualmente, todo 25 de dezembro, na cidade de Rio Branco - Acre, Brasil. O evento tem o intuito de divulgar o Heavy Metal de forma geral.

Documentário - O Heavy Metal Acreano I


Como andei colocando algumas relacionadas ao rock e ao heavy metal no Acre, algumas pessoas de outros estados começaram a me perguntar sobre o assunto... Sendo assim, achei legal colocar este documentário mais uma vez, pois ele mostra um pouco mais do assunto. Em breve colocarei as outras partes.

segunda-feira, 1 de março de 2010

A dama e o vagabundo


Meu último desenho de férias. Está meio distorcido devido à foto ser de celular...

Nothing Else Matters - Metallica


video

Vídeo da música Nothing Else Matters do Metallica, que fiz para minha esposa usando apenas imagens do Buddy Poke do Orkut. Não deixa de ser uma forma de expressão e de arte através da tecnologia...

Letra: (Para ver a tradução clique aqui)

Nothing Else Matters Metallica

Composição: James Hetfield/ Lars Ulrich

So close no matter how far
Couldn't be much more from the heart
Forever trusting who we are
And nothing else matters

Never opened myself this way
Life is ours, we live it our way
Hold these words
I don't just say
And nothing else matters

Trust I seek and I find in you
Every day for us something new
Open mind for a different view
And nothing else matters

Never cared for what they do
Never cared for what they know
But I know

So close no matter how far
Couldn't be much more from the heart
Forever trusting who we are
And nothing else matters


Never cared for what they do
Never cared for what they know
But I know


I Never opened myself this way
Life is ours, we live it our way
Hold these words I don't just say
And nothing else matters

Trust I seek and I find in you
Every day for us something new
Open mind for a different view
And nothing else matters

Never cared for what they say
Never cared for games they play
Never cared for what they do
Never cared for what they know
And I know, yeah!

(solo)

So close no matter how far
Couldn't be much more from the heart
Forever trusting who we are
And nothing else matters