Através de uma viagem mental dentro dos próprios quadros do artista, o trecho Corvos, do filme Sonhos, de Akira Korosawa nos remete aos quadros de Van Gogh e à sua forma única de ver o mundo. Forma esta, que é bem nítida também nas cartas que escreveu a diversas pessoas.
Em uma destas cartas, dirigida à Émile Bernard, em 1888, Van Gogh diz “A imaginação é certamente uma faculdade que devemos desenvolver, e só ela nos pode levar à criação de uma natureza mais exaltadora e consoladora do que o rápido olhar para a realidade (...)”. Exatamente como acabamos sendo inseridos em sua obra através do filme, acompanhamos as imagens mentais do personagem e acabamos imersos também no mundo dentro do quadro de Vang Gogh. Uma forma mais exaltadora e consoladora que um rápido olhar em uma galeria de arte por exemplo. Quando o jovem artista do filme finalmente encontra Van Gogh, este afirma que “quando há esta beleza natural, eu simplesmente me perco nela”. Com esta afirmação, o Van Gogh do filme está teorizando a prática encontrada em sua carta para Émile um ano depois.
“(...) Por isso, estou trabalhando no momento entre as oliveiras, buscando os efeitos variados de um céu cinzento contra um chão amarelo, com uma nota verde-escuro da folhagem; em outra ocasião, o chão e a folhagem são de um tom violeta contra um céu amarelo; em outra ainda, um vermelho-ocre no chão e um verde-rosa no céu”.
Em outro momento Van Gogh afirma que o Sol o compele a pintar. Esta força inspiradora está também retratada na afirmação que fez à Emile “(...) Não há nada que me impeça de pensar que no futuro muitos pintores irão trabalhar nos países tropicais”.
Van Gogh afirma seu encantamento com a forma dos japoneses fazerem arte, pois “vivem na natureza como se eles próprios fossem flores”. Mas esta mesma calma está em Van Gogh, que pacientemente busca seu quadro no trigal. Ali, ele também está vivendo na natureza, como parte viva do cenário à sua volta. Em outra carta, também à Théo, ele levanta a questão “Por que sou tão pouco artista que sempre lamento a estátua e o quadro que não estejam vivos?” Aqui, voltamos à sua necessidade de natureza, que o força a exteriorizar como locomotiva em forma de arte não viva que nunca o completa. Ele busca uma arte que respire, que não pareça pintura mas que seja natureza.
Referências:
KUROSAWA, Akira, Sonhos, Japão, 1990.
CHIPP, H.P. Teorias da Arte Moderna, São Paulo: Martins Fontes, 1996
sexta-feira, 11 de dezembro de 2009
A paisagem mental de Van Gogh
A mímesis de Los porongas
Platão, criticou todas as formas de imitação, inclusive as tragédias, por não descreverem realidades idéias eternas, mas por outro lado, dizia na República que a imitação é sobretudo o resultado da inspiração e do entusiasmo do artista frente a natureza das coisas aparentemente reais. O Los Porongas, em seu discurso prime a busca pela originalidade, calcada principalmente no regionalismo acreano, se coloca frente a estas sua aparente realidade, que os inspira a produzir artísticamente, não com o intuito de reproduzir, como Platão desejava da arte, as idéias eternas, mas apenas as idéias reais, do mundo à sua volta, do Acre, da música, de sua época. Neste sentido há dois caminhos a seguir, a mímesis pode se aplicar tanto técnicamente, quanto na recriação do mundo em que o Los Porongas vive. Esta diferenciação é importante para a compreensão real do trabalho desenvolvido e sua importância segundo a proposta própria de arte ou música autoral. No primeiro caso, torna-se algo negativo, que fere inclusive a proposta da banda, no segundo, apenas confirma sua identidade, que é construída aos poucos, no ambiente que os rodeia.
"Em todos os casos, falamos de imitação enquanto forma de representação do mundo e não como uma forma de copiar uma técnica (imitatio, na retórica latina), o que foi prática corrente a partir do Império Romano, sobretudo na imitação da obra de mestres de gerações anteriores (CEIA, Carlos, E-Dicionário de termos literários). "
São Tomás de Aquino não defendia uma visão da arte como imitação, mas para E. H. Gombrich, a história da arte Ocidental é uma procura por interpretações progressivamente mais vívidas da realidade. E neste contexto, podemos situar o Los Porongas.
Retomando os pensadores medievais, em sua definição de arte e imitação, deve-se lembrar que os medievais seguiam a três princípios chave nas suas criações tais como as catedrais de Mestre Chartres: proporção, iluminação, e alegoria. Se atualizados, estes conceitos ainda podem ser aplicados à arte, mesmo a música dos Los Porongas e a luz que incide de forma intencional em seus tubos de laser e telões e simbolicamente, há a luz que ilumina o interior ao passo que o Los Porongas traz em suas letras reflexões e um convite ao agir. A proporção está na construção de suas melodias, rimas e poesia métrica na voz de Diogo Soares no seu mundo ordenado de Demiurgo. E finalmente, a alegoria, presente nas referências à cultura acreana. O próprio Los Porongas é uma alegoria na medida em que representa a luta pela identidade própria em um mundo de cópias de cópias. O grupo, é a personificação do mundo socialista, todos sabem de suas responsabilidades e agem e trabalham como uma só entidade, num só objetivo. Diogo Soares é a personificação do líder, aquele que orienta e abre caminhos para que os outros o acompanhe, mas como bom líder, nega o papel. “Para um filósofo medieval como Aquino, a alegoria era um modo lógico para entender como Deus está presente no mundo. (Freeland, Cynthia, Teoria da Arte, Pág 11)”, para um filósofo contemporâneo como Diogo Soares, a alegoria pode ser um modo lógico para entender como a música está presente no mundo.
Referências:
Freeland, Cynthia, Teoria da Arte, Tradução de Beatriz Magalhães Castro, UNB
CEIA, Carlos, E-Dicionário de termos literários <http://www2.fcsh.unl.pt/edtl/verbetes/M/mimesis.htm> Acesso 13/11/2009
quinta-feira, 10 de dezembro de 2009
Ciência e Arte.

Tanto uma como a outra são ações criadoras na construção do devir humano. Assim, o conceito de verdade científico sempre cria mobilidade, o que aproxima estruturalmente os produtos a ciência e arte. Diante disso, há cada vez mais a tendência de dimensionar a complementaridade entre arte e ciência, necessitando da distinção entre elas e, ao mesmo tempo, integrando-as numa nova compreensão do ser humano (PCN - Arte, 1997).

O que seria do mundo da ciência sem a visão artística de Júlio Verne e mesmo Arthur C.Clark? Ou de Leonardo da Vinci? Era tão grande artista quanto cientista, e o conhecimento empregado em ambas as áreas serviram de mola propulsora tanto para o desenvolvimento da arte quanto da ciência. O próprio Einsten, afirmou que ao teorizar não “pensava em palavras”, mas primeiro criava mentalmente uma forma de pensamento visual (ícones), para então, traduzir seu pensamento visual para equações e fórmulas. Para os pintores e escultores existem uma série de fórmulas físicas e matemáticas que delineam seu trabalho, é preciso não apenas a sensibilidade artística ou a inspiração, é preciso também o conhecimento científico das leis de perspectiva, proporção áurea, etc...
Hoje, muitas obras tomam como tema questões relacionadas à tecnologia e ao conhecimento científico conseqüente. Pinturas fractais, arte digital, imagens microscópicas transformadas em belas paisagens... A ciência e a arte estão se reencontrando novamente, e deste reencontro, nenhuma sai ganhando, as duas saem.
Referências:
HERRERA, Antônia Torreão, Arte e ciência, Universitas Cultura, Salvador.
QUADROS, Cláudia Teresinha e col, Arte e Educação: Funções e significados
sábado, 5 de dezembro de 2009
Trecho do filme “Sonhos” de Akira Kurosawa (em português)
No episódio intitulado “Corvos” do filme “Sonhos” de Akira Kurosawa, o famoso diretor japonês nos mostra o seu fascínio pelo pintor Vincent Van Gogh. Nesse episódio um homem, ao admirar um quadro do artista, é levado para dentro da obra. Além de passear pelas pinturas do ídolo ao som da 9ª sinfonia de Beethoven, recebe uma lição de pintura do holandês: só é capaz de pintar aquele se envolve com a natureza, que a admira e segue a beleza que ela tem a oferecer.
A arte de Vik Muniz
quarta-feira, 2 de dezembro de 2009
Trecho do filme Sonhos, de Akira Kurosawa
No episódio intitulado “Corvos” do filme “Sonhos” de Akira Kurosawa, o famoso diretor japonês nos mostra o seu fascínio pelo pintor Vincent Van Gogh. Nesse episódio um homem, ao admirar um quadro do artista, é levado para dentro da obra. Além de passear pelas pinturas do ídolo ao som da 9ª sinfonia de Beethoven, recebe uma lição de pintura do holandês: só é capaz de pintar aquele se envolve com a natureza, que a admira e segue a beleza que ela tem a oferecer.
terça-feira, 1 de dezembro de 2009
Los Porongas e a análise tripartite
Vamos começar pelo título sintomático de seu primeiro trabalho, “Enquanto uns dormem”, é preciso, assim como diz na música Espelho de Narciso, precisão. Caso contrário, acha-se o avesso do inverso do verso. A banda prima pela poesia, deste modo, é impregnada de diversas formas de interpretação, mas, para mim, e para uma grande parcela de fãs da banda, “Enquanto uns dormem, o Porongas correm atrás”. Ao mostrar a capa do CD e o título à minha esposa, dizendo que era possivelmente a melhor banda do Acre na atualidade, o Los Porongas lhe pareceu promissor. Ouvindo, entretanto, ficou decepcionada. Certamente isto ocorre na mesma proporção em que eles encantam velhos fãs e arregimentam novos, pois fugir dos clichês e ter personalidade própria, ao mesmo tempo, em que rema contra a maré e faz música autoral não é tarefa fácil no cenário artístico musical contemporâneo. O professor Carlos Rogério Duarte aponta árduo caminho trilhado pelo Los Porongas ao retratar a lógica ideológica deste cenário musical:“já vem se delineando – espero que já venha se delineando – na música independente uma outra lógica: as canções ou músicas são obras de arte; a produção, de custos baixos e de qualidade, é sobretudo resultado de paixão; a diversidade é condição necessária, já que a pretensão não é fazer que o artista se torne produto consumível, mas que ele seja admirado pelas qualidades estéticas intrínsecas a sua obra”
Desta forma, fica claro que o título “Enquanto uns dormem” é uma alusão a esta realidade ideológica à qual o Los Porongas está imerso ativa e psicologicamente. Alguns dormem no público, não conseguem ainda sonhar com uma banda como o Los Porongas por sua limitação auditiva ou cultural. Outros dormem no cenário descrito por Rogério Duarte, e deixam de seguir os passos que os levariam ao encontro de seus anseios. Outros dormem atrás de mesas de gravadoras, sonhando com produtos prontos para o consumo de uma geração coca-cola, twitter e ipod que busca a “melhor banda de todos os tempos da última semana (Titãs)”. Enquanto isso, o Los Porongas também sonha, mas belamente acordado.
Com relação às qualidades materiais do Los Porongas, vamos considerar de imediato o significado intencional dos artistas. O Los Porongas deixa claro sua proposta em seu site oficial:
“Os Los Porongas ficaram conhecidos no circuito Acre-Rondônia pela sonoridade difícil de rotular, pelo zelo com a construção poética das músicas e pela preocupação em fortalecer a cena musical urbana da região (...) A diversidade de influências musicais é essencial para a construção da sonoridade da banda”
Esta atitude, do Los Porongas, se assemelha muito à de Serrano, na análise de seu trabalho feita por Lippard “mostrar como a nossa cultura contemporânea está comercializando e está pechinchando o Cristianismo e os seus ícones”. Encontramos a mesma atitude do Los Porongas ao trocar o cristianismo pelo cenário musical e as bandas deste cenário. Esta postura, aliada à sua musicalidade e a música realizada de forma autoral do Los Porongas é o fator que mais significado incorpora ao trabalho em sua definição de obra de arte. Segundo Jakobson (2005): “É precisamente essa interconexão das partes, assim como sua integração em um todo composicional, que funciona como o próprio signatum da música”.
Precisamos neste ponto situar o Los Porongas em seu contexto social e artístico para compreender seu percurso musical. Esta etapa do processo, amparando-se também em fragmentos do processo tripartite proposta por Molino agrega também informações externas ao fato musical, que também pode lhe conferir novos significados, ou reforçar os já existentes (NATTIEZ 2005). Neste sentido, toma grande importância o local de nascimento da banda. O Acre, Estado longínquo, do eixo Rio-São Paulo, terra de seringueiros, florestas e o mito que envolve Chico Mendes e a dita Florestania, que virou slogan político. Mas isto não significa que estejam longe do restante do Brasil:
“Com esse aquecimento cultural, as cenas locais produzem uma espécie de consciência coletiva de que é possível interferir no mundo, por mais distante que se esteja dos grandes centros culturais (Diogo Soares)”.
Este modo acreano de vida, que respira um ar diferente do restante do Brasil, de um lugar que em um passado não muito remoto foi negado pelo próprio Brasil, e foi posteriormente aceito como um pedaço de Brasil através do sangue derramado de muitos seringueiros impregna o Los Porongas, daí talvez resida sua busca por uma identidade própria. Nem bolivianos, nem peruanos, nem brasileiros, simplesmente acreanos. De outro lado, “Na diversidade de influências da banda, estão presentes Beatles, Radiohead, Kula Shaker Ocean Colour Scene, Moby, Nirvana, Gilberto Gil, Los Hermanos, The Smiths, Oasis, The Yeah, Yeah, Yeahs, Stone Roses, Vanguart, Superguidis, Chico Science e Nação Zumbi (My Space Oficial Los Porongas)”. Esta influência cultural foi absorvida em grande porcentagem pelos Los Porongas, e deste cadinho saiu um estilo único, nem rock, nem MPB, nem Indie, apenas uma bela obra de Arte definida como Los Porongas.
Referências:
FREELAND, Cynthia, Teoria da Arte, tradução, CASTRO, Beatriz Magalhães, UNB.
PIOVESAN, Lucas, A Teoria Semiológica Tripartite http://www.scribd.com/doc/17114611/CAPITULO-2 Acesso: 05/11/2009
DUARTE, Carlos Rogério, A métrica do Grito < http://ametricadogrito.blogspot.com/ > Acesso: 07/11/2009
Los Porongas site Oficial: < http://www.losporongas.com.br/> Acesso: 07/11/2009Myspace Los Porongas: <http://www.myspace.com.br/losporongas> Acesso: 07/11/2009
