terça-feira, 29 de dezembro de 2009

VI Feliz Metal, Rio Branco, Acre



Pensei em voltar aos velhos tempos e fazer uma resenha do VI Feliz metal, ocorrido em Rio Branco no último dia 25 de Dezembro. Mas estou tão afastado da cena de heavy metal (embora ainda respire o estilo e o sinta batendo forte em meu coração metálico) que não me senti capaz disso. Então, resta-me fazer como fiz ainda em 2001, quando realizei o primeiro Choose Your Side Festival em Minas Gerais, uma resenha sem a intenção de ser profissional, apenas um relato baseado nas impressões pessoais sobre o evento.

Então, primeiro algumas considerações sobre o Feliz Metal. Primeiro que tenho muito orgulho de ter feito parte da equipe que iniciou o projeto e de direta e indiretamente ter contribuído para sua realização. Jamais esquecerei a amarga dívida que contraí com a vinda do Steel Warrior na segunda edição do evento, mas também jamais me esquecerei da satisfação de pagá-la com o suor de meu trabalho, pois em um mundo onde o capitalismo predomina (inclusive no metal), saber que algo ainda é feito com intenções sem fins lucrativos e pelo puro amor é algo que somente alguns privilegiados podem compreender. Assim, minha contribuição direta para a terceira edição foi apenas a quitação de minha parte da dívida, mas tenho certeza que dali para frente contribui indiretamente com o sucesso do projeto. Também não me esqueço da dose de profissionalismo que sempre tentei injetar nas bandas do Acre, das cobranças por material próprio e pela divulgação além-Acre. E por isso, mesmo não tendo mais ligação direta com o festival, sinto-me orgulhoso por acreditar que de alguma forma influenciei (ao menos um pouco) esta nova perspectiva e sucesso, sem é claro, tentar trazer para mim os méritos dos que continuaram após minha saída, e que estes sim, foram diretamente responsáveis pelo que temos hoje, um grande evento, inter-estadual e profissional. Senão vamos comparar, se pegarmos eventos do mesmo porte em outros estados, quantos deles podem trazer as bandas de tão longe de casa? E mais, de avião? E não só a banda, mas também a necessária equipe de apoio? Quantos destes eventos possuem dois palcos para que quando uma banda termine a outra já esteja pronta para prosseguir com o espetáculo?

É claro que há problemas e dificuldades. Aliás, estas últimas imensamente maiores que em outros estados. E digo isso não na perspectiva de alguém que imagina as outras cenas, mas da perspectiva de alguém que realmente conhece as outras cenas de perto, que atuou durante quase uma década no underground nacional e que, modéstia jogada para as cucuias, sabe do que está falando. E o que sei é que acabei vindo para o Acre porque sabia que havia uma lacuna a ser preenchida e queria participar da construção deste cenário, que já existia, mas que precisava de se mostrar para se desenvolver mais. Acabei não participando tanto quanto gostaria, minha vida tomou rumos totalmente distintos dos que imaginava quando cheguei ao Acre com R$1,50 no bolso. Mas fico feliz em ver que eu estava certo quando depositei no Acre as minhas fichas.


Esta edição teve presença de bandas acreanas, Rondonienses e de São Paulo. Vou citá-las não exatamente por ordem de apresentação, mas por conveniência de memória. Entre as acreanas, achei muito legal perceber novos nomes no cast, pois não se pode manter de pé uma cena que tenha apenas um ou dois nomes atuantes, é preciso constante renovação. A primeira a se apresentar foi a Suicide Spree, que em alguns momentos me lembrou algo na linha do In Flames e em outros, os veteranos do Obituary que para mim é umas das maiores referências do death metal. Achei a banda muito bem entrosada e com um imenso potencial, mas creio que a identidade ainda esteja se moldando. Realmente uma boa promessa do estado. A Seventy Hill por sua vez foi surpreendente, pois a banda não é de Rio Branco, mas de Cruzeiro do Sul, segunda mais importante cidade do estado, mas com uma ainda desconhecida tradição metálica, mesmo em Rio Branco. Boa banda, boa surpresa. Por outro lado, a Silver Cry já é bem conhecida na região, mas apresentou-se com uma formação bem diferente da que eu conhecia, tendo trazido o primeiro vocalista João Neto (Fire Angel) de volta ao posto e tendo apenas Ricardinho como remanescente da formação que acompanhei por mais tempo. Ainda em terreno acreano a Raw Ride queria e conseguiu atenção. Formada por músicos provenientes de outras bandas, como membros de antigas formações da Silver Cry e Dream Healer, fez uma apresentação legal, mas chamou a atenção para si no final da apresentação, quando colocou no palco duas garotas fazendo strip e dançando no melhor (pior) estilo axé. Na verdade, foram um pouco além do tradicional bunda-music, deixando para trás toda a roupa que vestiam... Se foi uma forma de protesto não sei, se vai criar problemas para a organização também não sei, se foi apenas curtição, idem. Se foi apenas para chamar atenção, chamou (embora não por méritos musicais). De qualquer forma, criou comoção, cada um decida o que achou. E, por fim, a Survive, banda que representou o Acre em São Paulo, na seleção do Wacken promovida pela Roadie Crew, mais uma vez mostrou que é uma das mais promissoras bandas do estado. Fazendo um Death Metal agressivo, técnico e profissional, empolgou muito.

Já as bandas de Rondônia foram Sortilégio e Bedroyt. Ambas já conhecidas na região. A primeira com um estilo calcado no death-black metal com um detalhe interessante, cantado em português. A segunda, mais na linha hard-heavy, com uma apresentação bem caricata de um guitar-hero, mas muito legal. Senti falta do vocalista Elias, que na última vez que vi a banda em Porto Velho, durante o Madeira Festival, acabou com tudo com uma apresentação à lá Ralf Scheepers. Por fim, o Fates Prophecy, de São Paulo. Já havia visto um show da banda ainda com André Boragina nos vocais e outro com Sérgio Faga, ambos muito bons shows. Infelizmente este terceiro, com o novo vocalista eu não gostei. Inicialmente por o som na apresentação do Fates Prophecy estar horrível. Não se ouvia a voz do vocalista de modo algum na primeira música. Depois melhorou, mas ainda assim a apresentação não seguiu como deveria. E assim, mesmo com uma melhora do som, continuei não gostando. Nem mesmo o clássico Pay for Your Sins e minha música preferida da banda Wings of Fire ajudaram. Entretanto, deixo o som ruim assumir a culpa pela maior parte desta má impressão, pois sei que a banda é mais do que isso. O Korzus por sua vez é outro caso, pois seu som estava infinitamente superior. Para mim, que viu a banda pela primeira vez em 1998 no saudoso Mosters Of Rock (com Megadeth, Slayer, Manowar, Dream Deather, Saxon, Dorsal e Gleen Huges) foi nostálgico. Não à toa, sempre sugeri a banda para os realizadores, são mais de 25 anos de metal... O show foi ótimo dentro de suas devidas proporções, muitos clássicos novos e alguns antigos. Só faltou mesmo um maior público e conseuqnetemente uma reação mais calorosa dos fãs, pois a banda merecia. Foram poucos os que ficaram até o final, mas quem ficou teve o gosto de ver no Acre uma das melhores e mais tradicionais bandas de heavy metal do Brasil. Há dez anos eu jamais imaginaria que isto ocorreria...


Portanto, o saldo foi muito positivo, mais um passo foi dado pela Dream.Cry, e mais uma vez um passo para a frente o que é mais importante. Méritos de quem continua na batalha como o Ricardinho e satisfação de quem atualmente só aprecia e eventualmente comenta algo realizado por outrem, como eu. Que no próximo Feliz metal mais um passo seja dado. E que venha o Blaze, se não no Feliz metal, em outro evento.

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Blog do Altino




A segunda postagem de Altino Machado no seu blog data de 26 de Outubro de 2004 e é a respeito de Liberdade de Imprensa. Três dias depois, denunciou um caso de tortura onde um pedreiro teria sido preso e torturado nas dependências de uma delegacia em Rio Branco. No próximo dia, colocou um post extraído do site Caverna da Lua de Saturno referindo-se à censura:

“A última proeza do Astronauta de Mármore foi reservar espaços para quem queira falar bem ou mal do governador Jorge Viana. Pincei de lá, o bom debate que se estabeleceu entre os jornalistas Antonio Alves e Angélica Paiva sobre liberdade de imprensa no Acre”. (Altino Machado)

Dali por diante, muitos tópicos de igual teor político-cultural foram ao ar. O blog é considerado por várias pessoas como o mais influente e importante do Acre como cita a escritora global Glória Perez quando diz que "Altino Machado escreve o blog mais famoso do Acre" ou como afirma um dos mais conhecidos blogueiros do Brasil, Ricardo Noblat, “Altino Machado é o melhor blogueiro do Acre". Outros nomes reconhecidos nacionalmente deixaram seus comentários, e Altino os reproduz em sua página como atestado de reconhecimento por seu trabalho.

"O weblog do Altino Machado é o veículo de comunicação mais temido e bem informado do estado. Quando o governador quer que alguma notícia repercuta além da imprensa oficial, é para Altino que ele liga, apesar de eventualmente levar uma cutucada de seu blog". (André Vieira - Rolling Stone)

Isso sem citar as dezenas de leitores que respondem aos tópicos do blog, muitas vezes incitando um debate fervoroso. Ajuda neste tipo de direcionamento o fato de em seu blog Altino fazer questão de moderar os comentários, que são acompanhados por ele um a um. Assim o jornalista filtra os comentários que considera desnecessários. Infelizmente, há também aqui os prós e os contras, pois se por um lado nivela os comentários pelos padrões do autor do blog, por outro pode criar acusações de censura devido aos comentários não publicados.

Para não cansar o leitor com o seu tema principal, voltado à política, Altino usa a estratégia de interpor a estes, assuntos de interesse popular (como o do barco-hospital João Sobrera, que foi tragado pelas águas), corriqueiros (as Karas do Boto) e outros que sejam de interesse popular mas que tenham um certo teor crítico (Holarias) , mas muitas vezes estes assuntos se interligam. A estratégia parece funcionar. Acessando o Blog em três datas distintas, cinco vezes por dia, não houve uma única ocasião em que estavam on-line no blog menos que 15 leitores. Através de suas estatísticas, disponibilizadas no próprio blog, constata-se que desde setembro de 2008, quando iniciou a contagem, até 14 de dezembro de 2009, data de meu último acesso ao blog, foram 437.814 visitantes únicos, sendo que por ida, a média de visitantes ao blog é de 893, enquanto na última hora 80 pessoas haviam acessado o blog e na data, 945 visitantes únicos tinham acessado o blog até as 18:45. Pode não parecer à primeira vista, mas é muita coisa. O site do Senador Tião Vianna, por exemplo, não possuía mais que seis visitantes on-line em nenhuma das cinco vezes em foi acessado na mesma data.

O blog possui diversos links para continuar a navegação pela web, entre eles afetos e desafetos do jornalista, mas que em seu conjunto constituem uma valiosa fonte de consulta sobre os assuntos diversos que são também encontrados no blog do Altino, política, história, cultura, arte, notícias, jornalismo e generalidades, por isso, após uma extensa visitação nas páginas internas e em todo o arquivo do blog, não se deve deixar de seguir o percurso através destes links, que levam a caminhos tão distintos quanto os encontrados por Altino em seu blog.

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Los Porongas: arte, hibridismo e mercados

Segundo o português Paulo Barroso, “A obra de arte não se produz isoladamente e para compreendê-la é preciso estudá-la objetivamente no contexto histórico em que se realizou. Porque quer a obra quer o artista são produtos sociais.” Isso significa que tanto os artistas quanto seu público, o Estado, críticos e patrocinadores (modernos mecenas?), o que podemos constituir como o mercado ,se influenciam. Conseqüentemente, segundo ele, o gosto ou os cânones dominantes de uma determinada sociedade e época tendem a condicionar novas formas de expressão. O Los Porongas, como arte, não são exceção à regra, e influenciam tanto quanto são influenciados pelo mercado.

Assim como ocorre nas galerias de Arte com seus curadores e agentes de artistas que intermediam e influenciam a forma pela qual o público vê as obras expostas, no meio musical independente (embora o quadro se acentue nas “majors”, as grandes gravadoras) também existem intermediários entre o público e o artista capazes de alterar e influenciar a arte que representam. Uma das ações mais evidentes do Los Porongas como parte deste mercado musical ao qual está inserido se dá com sua saída do selo que lançou seu primeiro CD. A banda, segundo declaração on-line da gravadora independente haveria traído “princípios que norteiam o circuito independente por ter aceitado trabalhar com uma grande produtora”. Segundo Barroso “Com freqüência, líderes de opinião condicionam a receptividade pública de obras por veicularem juízos estéticos e críticos. A moda ou seguidismo do público são proporcionados pela emissão, por parte dos críticos, de juízos estéticos sobre as obras”. Para Diogo Soares, não há contradição em trabalhar com uma produtora que venda seus shows e articule a carreira da banda em parceria com o Los Porongas. Segundo ele “Músicos também precisam pagar as contas. Não há desonestidade em viver da música que se aprendeu a fazer”. O fato é que temos neste contexto a ruptura de um paradigma, onde se pode fazer um paralelo com a obra de Edouard Manet (1832-1883), pintor que é considerado precursor da pintura moderna, mas que em vivo foi execrado pelos críticos. Independentemente da qualidade artística, a maior parte das obras de Manet rejeitadas no século XIX encontram-se hoje nos museus mais importantes espalhados pelo mundo (cf. FURIÓ, 2000: 31). Neste paralelo, não se evoca a rejeição inicial para posterior endeusamento, como ocorreu com Manet, pois em suas devidas proporções o Los Porongas têm sido bem aceito em seu próprio meio. Mas evidencia-se, entretanto, a mudança do grau de apreciação da obra do Los Porongas devido justaposição de idéias e valores dentro do mercado ao qual estão inseridos. “As obras são as mesmas. O que mudou foi a apreciação da sua qualidade, os juízos de valor dependentes das idéias, interesses e gostos historicamente variáveis das pessoas que os formulam e que são condicionados pela sociedade e pela cultura de uma determinada época (Barroso, Pág-85).”

Esta localização geográfica e cultural é outro fator que influencia de várias formas o artista, sua obra e o mercado artístico. O próprio Los Porongas, é inevitavelmente lembrado por ser uma banda acreana, embora seja evidente que há diversas outras características mais universais na banda, o que às vezes faz com que estes aspectos não regionais sejam lembrados pelos póprios músicos:

“eu não conseguia identificar na nossa música muitas coisas que identificassem como uma música feita no Acre. Alguma coisa aqui e acolá, nas letras principalmente. Algumas falam sobre temáticas, por exemplo, ‘Ao Cruzeiro’ que é uma música que fala sobre o Santo Daime, então claro, tem uma relação com o Acre (Diogo Soares).”

“Acho que o que faz as pessoas acharem que tem uma coisa de Acre, uma coisa regional, tem haver com a letra das músicas. Algumas expressões, algumas palavras. Tipo, em ‘Enquanto uns dormem’, quando ele fala que faz escultura a luz do lampião, ou então em ‘Ao Cruzeiro’, quando o Diogo canta "a proa quando apruma avoa", são expressões que quando você fala lá em São Paulo, ninguém vai nem entender o que é. E aí acho que no inconsciente puxa essa coisa do Acre, uma coisa regional (Jorge Anzol)”.

Segundo Barroso “O homem, como ser cultural, é o resultado de uma construção sócio-cultural. Por isso, é um “artefato” cultural, na medida em que a cultura lhe serviu como padrão de conduta para agir, pensar, sentir, comunicar, relacionar-se com os outros, etc. Neste sentido, a dimensão simbólica das práticas artísticas e dos rituais sociais são o resultado da dita construção sócio-cultural.” Nisto, podemos inserir o Los Porongas como produto de seu meio, entretanto, sujeito às influências exteriores, que agora, com a banda em São Paulo, este padrão se altera, e as influências exteriores acentuam-se.

“Nós somos outras pessoas agora. Essa ida para São Paulo fez com que a gente mudasse interiormente. E quando você muda, sua música muda naturalmente. O lance do espaço onde você vive, a vida do artista é essa, do poeta, do músico, do escritor, é traduzir a realidade dele. Então assim, a gente está em outra realidade, viver em São Paulo está influenciando a nossa forma de compor. (Diogo Soares).”

“Musicalmente falando, é uma leitura que a gente faz se utilizando de linguagens universais, se utilizando da linguagem do roque, que é a mesma linguagem que o cara do Rio, de São Paulo de Nova Iorque, Londres está se utilizando também. A gente foi tocar em Uberlândia, aí teve um cara, um músico que chegou pra mim e falou assim "cara eu percebi uma coisa de tambores, um negócio indígena, muito forte". E eu falei "cara sinto te decepcionar, mas esses tambores que você ouviu aí, tem muito mais haver com Legião Urbana ou com a levada de soldados que é feita nos tambores do que com qualquer ritual indígena". Eu me sinto mais influenciado pelo roque, pelo Legião Urbana, pelo roque de Brasília, pelas bandas inglesas, do que um ritual indígena (Jorge Anzol)”

Para o tipo de arte que o Los Porongas cria hoje, a tecnologia parece estar causando um impacto maior que os tradicionais intermediários, que há duas décadas detinham o poder de construir e destruir carreiras com uma simples assinatura, resenha em revista especializada ou indicação, sendo capazes de mudar o gosto e o comportamento de grande parcela do público. Neste novo mercado, os downloads legais ou ilegais estão tirando o poder das mãos dos intermediários, mudando a forma como esta arte é consumida e revolucionando o cenário musical, seja underground ou mainstream. Para Diogo Soares “o trabalho artístico está sendo divulgado e, o artista quando faz uma música é para que ela seja ouvida, apreciada, como deve ser toda verdadeira obra de arte. Nesse sentido a comunidade estabelece um elo direto entre o artista e o público ouvinte, corroborando a revolução de mercado que não exige mais que um artista necessite de um "atravessador" para levar suas músicas ao grande público”. De acordo com Read, “ninguém negará as profundas inter-relações entre o artista e a comunidade. O artista depende da comunidade – vai buscar o seu tom, o seu ritmo, a sua intensidade à sociedade de que é membro” (READ, 1968: 175). E as inovações tecnológicas, á medida em que aproximam cada vez mais os artistas de seu público, remodelam as regras do mercado, influindo diretamente na pirâmide mercadológica, colocando no topo a obra, o artista e o público, vindo só no meio e na base os críticos, os espaços de apresentação, os patrocinadores e todos os outros que influenciam direta e indiretamente este mercado. Com esta mudança do status quo, o artista muda sua forma de ver e de fazer arte e o público também. No processo de construção da realidade social, acordada, pública e partilhada, influi também a construção do Eu, fruto de percepções de dados do exterior para o interior (da cultura para a mente) e expressão de estados do interior para o exterior (da mente para a cultura) (BRUNER, 2000: 108).

O fato de acreditarmos desde o começo na música como expressão do que sentimos e não como mera cópia do que ouvimos ou nos obrigam a ver e ouvir. Isso nos forçou, intuitivamente, a criar uma linguagem diferente, matizada numa música que traz o Acre implícito em letras, levadas e melodias mas que se enquadra perfeitamente em outras paisagens. Essa construção estética tem criado um bom público porque orgulha os acreanos e desperta o interesse de quem é de fora, por conta, também, das multireferências que estão encravadas na nossa música. (Diogo Soares)

Referências:

BARROSO, Paulo. Arte e sociedade: comunicação como processo. Atas dos ateliers do Vº Congresso Português de Sociologia

HighPop <http://www.highpop.com.br/2009/01/entrevista-diego-soares-los-porongas.html > Acesso: 06/12/2009

Drop Music <http://www.dropmusic.com.br/index.php/entrevistas/2085-los-porongas-julho2009 > Acesso: 06/12/2009

ZÍLIO, Andréa, Los Porongas: iluminando a selva de concreto, Página 20, Acre, 2007 <http://www2.uol.com.br/pagina20/29042007/entrevista.htm> Acesso: 06/12/2009

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Revelando o sagrado de Christian Boltanski


No mundo ocidental, a Idade Média é conhecida também como a Idade das Trevas, segundo Christian Amalvi (2002, p. 539) o período foi “uma interminável noite que os raios de sol do século XVI enfim dissiparam”, afinal foi durante este período que ocorreram fatos como a peste negra que assolou a Europa, as guerras, as Cruzadas, a Santa Inquisição e sua caça histérica às bruxas, etc. Fatos estes, que mancharam a história da humanidade. Entretanto, esta é uma visão simplificada desta época, foi na idade média que se desenvolveu as primeiras universidades, e nela se desenvolveu também as bases para o próprio Renascimento, que a seguiria, assim como a Reforma, etc.

Tradicionalmente, a idade média é delimitada entre os períodos que compreendem a Alta Idade Média, no séc. V com a desintegração do Império Romano do Ocidente e a Baixa Idade Média, no séc. XV, com a queda de Constantinopla. Além das sub-divisões em Antiga, Plena e Tardia. “A terminologia Medium Tempus (Idade Média) foi cunhada no século XIV por Petrarca e outros humanistas italianos e, posteriormente, a partir do século XVI, desenvolveu-se mais amplamente entre intelectuais alemães e franceses para designar um período que constituiria uma idade intermediária entre a Antigüidade e o futuro que estava à porta, a renascença. Claramente, apesar de já muito difundido e constantemente utilizado, o termo Idade Média carrega em si uma dose de preconceito e desconhecimento perante um magnífico período da história da humanidade (Nunes).”

A arte e da mesma forma o artista medieval foram marcados pela religiosidade da época e pela influência da igreja. Normalmente as pinturas eram voltadas a passagens bíblicas e a ensinamentos de cunho religioso. Eram formas de usar a arte para implantar as idéias religiosas. Na arquitetura a influência da igreja também se fez presente, onde destacou-se a construção das grandes catedrais, igrejas e mosteiros. “Com a conversão de boa parte da Europa ao cristianismo, a partir do século 4, a honorável arte clássica, tida como pagã, foi abandonada com a vitória da nova crença pregada pelos Apóstolos de Jesus (Schilling)”.

Além da Pintura e da Arquitetura, os artistas da Idade Média também se dedicaram com grandes resultados à tapeçaria, esta, se desenvolvendo mais por necessidade que por influência da igreja, já que os castelos, feitos de pedra, necessitavam de grandes tapeçarias que tornassem seu ambiente interno mais aconchegante, quente e confortável. A “mais famosa tapeçaria medieval é o ciclo d' A senhora e o unicórnio. As duas principais manifestações arquitetônicas, principalmente relacionadas à construção de catedrais, foram o estilo românico e mais tarde o gótico. Destaca-se também a formação das corporações de ofícios, reunindo artesãos.(Wikipédia)”. Além disso, estava sendo formado “uma classe de tecelões de altíssima qualidade e também o aparecimento dos alfaiates.” (Lipovetsky,1991).

Como consequência do desenvolvimento artístico da arquitetura, os vitrais também adquiriram um enorme valor artístico e religiosona Idade Média. Mais que simples ornamentação de igrejas e catedrais, eram também objeto de imponência e religiosidade, já que retratavam passagens bíblicas. Os vitrais representavam também um problema para o artista, pois sendo muito pesados, apresentavam com o tempo diversas dificuldades de manutenção. Também depdendente da arquitetura era a pintura parietal, ou seja, executada nas paredes.

Christian Boltanski nasceu em Paris, em 1944, e é considerado um dos maiores artistas de sua geração. Após o seu primeiro livro intitulado Recherche et présentation de tout ce qui reste de mon enfance publicado em 1969, declarou que toda a sua obra se encontrava ali.
Em 1958 começa a pintar, em 1967 abandona sua prática pictórica na pintura e em 1968 as revistas de arte, começa a fazer fotografia em preto e branco, aborda o trágico, o humano.
Em 1969, reúne documentos sobre seu suposto falecimento, batiza a obra de Reconstitution d'un accident qui ne m'est pas encore arrivé et où j'ai trouvé la mort.

A partir da década de 70 começa a dedicar-se aos anônimos, como Album de photos de la famille D e um homem de Oxford (ambos de 1973) e a série Imagens Modelo.
Em 1984, redigiu uma espécie de biografia oficial, para implementar a retrospectiva que lhe dedicou o catálogo do Centro Pompidou. Na década de 80 e 90, Boltanski começa a se dedicar à construção de monumentos à memória das vítimas da guerra e do holocausto.
No início dos anos 2000, cria um conjunto, chamado Coming and Going, que é exposto em Nova Iorque. A obra retoma e expande a idéia criada em 1984, com a série dos Monumentos, uma fotografia, com um novo enquadramento entre lâmpadas acesas.

Em 2001 Christian Boltanski declara a Lynn Gumpert: “Eu sou um pintor extremamente tradicional. Eu trabalho para proporcionar emoções aos espectadores, como todos os artistas. Eu trabalho para fazer rir ou chorar o mundo”.
Boltanski explora o tema da perda de memória, colocando o tema entre uma tênue linha divisora entre o anônimo e o identificável, profano e sagrado, sentimental e trágico, misturando diversos ritos e tradições.

A própria forma em que Christian Boltanski instala suas obras, remete de imediato à Idade Média, já que nos remete à catacumbas e até nos fazem ressentir fisicamente o horror, a relatividade e a subjetividade da historificação. « Ficamos esmagados sob o peso da nossa sociedade, da sua vontade de julgar. E Christian Boltanski está permanentemente a reenviar-nos para a nossa própria realidade pelo intermédio de um espelho (Schraenen) ». Outra grande ligação entre a arte de Boltanski com a idade média é o realismo, pois foi a partir da idade média que este estilo se desenvolveu. «Podemos dizer que há aqui um novo e sutil tipo de realismo. E se for possível uma recolocação desse conceito, deveremos no entanto pensar num realismo que se liberta da questão da mimesis perfeita (Entler).” Este entretanto, é um realismo que pretende não retratar a realidade como ela é, mas uma realidade artística, marcada pelas possibilidades de manipulação e reconstrução da realidade, numa ligação direta com o imaginário de seu autor. “Os novos realistas se conscientizaram de sua singularidade coletiva. Novo Realismo = novas abordagens perceptivas do real. Assinado: Arman, Dufrêne, Hains, Klein, Raysse, Restany, Spoerri, Tinguely e Villeglé". Além disso, a Escolástica é também uma grande inspiração na forma de Boltanski trabalhar e esta atuou em toda a Idade Média com sua religiosidade e fé da mesma forma introspectiva em que são cosntruídos os oratórios de Boltanski.


Referências :


Idade Média :

http://dejavu.lastdesign.com.br/ Acesso : 01/11/2009
http://www.suapesquisa.com/idademedia/ Acesso : 01/11/2009
http://www.historiadomundo.com.br/ Acesso : 01/11/2009
http://anodafrancanobrasil.cultura.gov.br/fr/2009/03/31/entretempos-uma-decada-de-arte-francesa-nas-colecoes-de-video-do-museu-de-arte-moderna-de-paris/ Acesso : 01/11/2009
http://www.assevim.edu.br/agathos/3edicao/silvia.pdf Acesso : 01/11/2009
http://educaterra.terra.com.br/voltaire/cultura/2005/07/14/001.htm Acesso : 01/11/2009
http://pt.wikipedia.org/wiki/Idade_Média#Arte Acesso : 01/11/2009
Christian Boltanski
http://www.studium.iar.unicamp.br/22/03.html?ppal=2.html Acesso : 01/11/2009
http://cboltanski.blogspot.com/ Acesso : 01/11/2009
http://www.centopeia.net/download/natureza_segunda_da_morte.pdf Acesso : 01/11/2009
http://www.intercom.org.br/papers/nacionais/2005/resumos/R1089-1.pdf Acesso : 01/11/2009

sábado, 12 de dezembro de 2009

Versalhes, Parsifal, Brillo Boxes e Los Porongas: semelhanças e diferenças

No capítulo II, do livro Teoria da Arte de Cynthia Freeland, com tradução para o português de Beatriz Magalhães Castro, encontra-se uma análise de três grandes questões. Os jardins de Versalhes, a obra Parsifal, do compositor erudito Wagner e a obra Brilhol do artista POP Andy Warhol. À primeira vista, os três pouco possuem em comum, tanto entre si, quanto com a banda acreana Los Porongas, mas é preciso entender um pouco das semelhanças e diferenças entre cada uma destas manifestações artísticas.
Para Kant “a arte não pode dizer-se bela a não ser quando estamos conscientes de que se trata de arte ao mesmo tempo que ela nos aparece, todavia, enquanto natureza”, qual exemplo melhor desta ligação que os jardins de Versalhes? Para a execução dos projetos destes jardins, é necessário ordem, controle racional das formas, entretanto, uma parte deles permanece imprevisível, a parte natural. Assim, os jardins tornam-se um privilégio artístico, capaz de combinar a beleza natural e a beleza artística.

“(...) nunca nenhuma delas poderá estar ausente. Um jardim sem componente natural será uma escultura, e sem a componente humana será natureza virgem (CEAP)”.

Os jardins de Versalhes buscam sua inspiração na arte clássica de um passado distante. O Los Porongas, busca suas raízes musicais em um passado menos distante, no entanto, não menos clássico em seu próprio contexto. Segundo o Freeland “As alusões ao classicismo em exibição por toda a parte em Versalhes exigiriam um público educado para apreciá-las (pág13)”. Do mesmo modo, para se compreender o quadro Guernica, de Picasso em sua totalidade é necessário se conhecer o contexto no qual a obra foi realizada e o que vem a ser o cubismo. Assim, a compreensão da arte do Los Porongas exige determinado grau de educação sobre o cenário musical independente, sobre música e sobre a cultura acreana, é preciso conhecer o que se chama de cenário independente, onde reside a banda Los Porongas, um cenário musical onde o principal é não o sucesso comercial, mas o próprio ato de se fazer arte de forma autoral, sem a preocupação de se copiar e tocar os hits do momento e sem a necessidade de grandes produtoras ou gravadoras ditando as regras de como se fazer música, na maioria das vezes estirpando a arte do artista em detrimento do retorno financeiro.
Como a banda explora falas e fatos típicos da cultura acreana, com um pouco de conhecimento da cultura onde a banda nasceu pode-se degustar as letras e as músicas com mais aprofundamento, caso contrário, pode ser considerado exótico, mas não arte, pois para o senso comum a arte deve seguir padrões que agradem a maioria e não atuar regionalmente. Para este pensamento, uma banda autoral, desvinculada do sucesso comercial de grandes gravadoras e que explora uma cultura inexplorada nos grandes centros urbanos, é apenas exótica. Mas o Los Porongas faz mais que isso, e por isso ela se torna imprevisível. Em termos kantianos aplica em sua música uma reconciliação entre a natureza e o espírito.

“o seu funcionamento intrínseco terá sempre uma parte que nos é alheia e que faz com que o futuro da obra seja incerto em alguma medida; esta incerteza potencia o chamado caos determinístico que consiste na diferença entre o plano e a realidade planeada (Magalhães, 2001).”

Wagner “atuou eloquentemente a parte do gênio Romântico com a sua vida de amor tumultuosa, admiradores fanáticos, fugas de escândalos e dívidas, e fama internacional (Freeland)”, se assemelha ao cenário artístico ao qual o Los Porongas está inserido, comumente associado aos excessos, fãs fiéis e a busca pela fama. É claro que nem todo este caminho será percorrido pelo Los Porongas, mas ele está a sua volta assim como esteve à volta de Wagner. Mas não é apenas este cenário aproxima Wagner do Los Porongas. Wagner apresentava um tipo de arte no qual ele não só controlava características musicais mas também o libreto, encenação, figurino, e cenários, atitude parecida com a que encontramos no trabalho de bandas independentes como o Los Porongas. São responsáveis não apenas pela sua música, mas pelas suas apresentações, letras, cenários e atitudes, tudo o que compõe sua própria “Gesamtkunstwerk”.
Nietzsche rejeitou a mensagem de Parsifal por ser, para ele demasiadamente ‘Cristã’, fugindo daquilo que ele celebrava em Wagner, o culto às raízes alemãs. O Los Porongas corre o mesmo risco de Wagner, pois ao abordarem tão intensamente suas raízes, sua arte pode ficar vinculada à este padrão, e se inadvertidamente, mudar seu enfoque, os Nietzsches modernos se apressarão a chamá-los de vendidos. Entretanto, assim como com relação à Wagner, é preciso compreender que para muitas pessoas, preocupações estéticas e morais conflitam criando um dilema na avaliação.

“Para Nietszche cada artista expressa a sua verdade na sua obra. Mas mais importante ainda, Nietzsche inicia o processo da individualização contemporânea. Na Antiguidade a arte era objetiva, na Modernidade era subjetiva e na Contemporaneidade individualista (CEAP).

Desta forma, podemos concluir que este processo iniciado por Nietzche culminou com o ultra-individualismo, que anos depois atribuiria à originalidade o lugar mais importante do juízo estético, o que abriu caminho para as vanguardas do início do século XX e artistas como Andy Warhol, numa estrutura fragmentada que descodifica e recodifica as imagens que rodeiam a nossa vida de todos os dias (Almeida, 2002).

“A alegoria é a forma encontrada, a fragmentação, as instalações com uso de espaços arruinados, a recusa do retorno às normas estilísticas e a tentativa de encontrar novas categorias conceptuais num confronto directo com a totalidade simbólica modernista. Este confronto foi primeiramente experimentado pela Pop Art, na qual Warhol tem um papel preponderante (Foster, 1996).”

Warhol chamou atenção por trabalhar com produtos inseridos no cotidiano, no ambiente ao nosso redor, como ficou evidente em suas Brillo Box. Assim também é o Los Porongas. Utilizam-se de idéias simples e conceitos usuais, mas que na maioria das vezes não se percebe arte, como o ato de subir o rio numa voadeira (espécie de lancha). Mas quando musicalizado, este cotidiano se transforma em arte, não pelo simples fato de se transformar letra em música, mas como Warhol, por transformar o cotidiano que está na nossa cara em arte, e o simples passeio passa a ser “A proa quando apruma voa”, arte em verso, rima e música. Também em sintonia com Warhol, há a ligação com a cultura popular, a política e a moda, ainda que esta seja para efeito, uma tentativa de afastamento do tema.

“Porque era uma obra de arte quando os objetos que se assemelham exatamente a ele, pelo menos sob critérios perceptuais, são meras coisas, ou, no melhor dos casos, meros artefatos? (...) De fato, as caixas de Warhol seriam muito bons pedaços de carpintaria. (Danto)”

O Los Porongas, se assemelham exatamente a outras bandas, de fato, a música do Los Porongas seriam muito boas notas musicais. O que os torna então, mais que isso? O que torna a simples junção de notas musicais arte? Danto afirma que as Brillo Boxes não foram imediatamente aceitas pelo “mundo da arte”, e possivelmente ainda não seja pela maioria das pessoas. O Los Porongas passa pelo mesmo processo, por fugir do senso comum e ao mesmo tempo do senso modal e do elitizado do que é arte, não é aceita de imediato. Tem seu séquito de fãs, mas as grandes rádios e “majors” ainda não conseguem vê-los como mais que uma banda igual as outras, uma caixa de Brillo exatamente como outras. Mas aqui, vale lembrar o conceito de arte dado por Danto, e que se aplica tanto às Brillo Boxes quanto ao Los Porongas “Nada é uma obra de arte sem uma interpretação que a constitui como tal”. Para entender o Los Porongas como arte, devemos compreender seu contexto social e cultural, como uma banda de rock, acreana, autoral, independente e aculturada. Warhol e Los Porongas poderiam não ter sido considerados como arte na Grécia antiga, na Chartres medieval, ou na Alemanha do século XIX, mas se qualquer coisa pode ser uma obra de arte numa determinada situação e de uma teoria certa, como propõe Warhol, o mesmo se aplica aos Los Porongas.

Referências:

Freeland, Cynthia, Teoria da Arte, Tradução de Beatriz Magalhães Castro, UNB
CEAP, Centro de Estudos de Arquitectura Paisagista, Instituto Superior de Agronomia de Lisboa (autor desconhecido).
<http://www.isa.utl.pt/ceap/index_files/tfclima.pdf > Acesso: 11/12/2009